A ilustração como arte

No dia 14 de dezembro de 1837, foi publicada a primeira “caricatura” no Brasil. Ou o primeiro cartun, como se diz, hoje em dia. Já corriam soltas as estampas litografadas, mas o anúncio no Jornal do Comércio consolidou a data oficial, com a ilustração atribuída a Manuel de Araújo Porto Alegre, sob o título: Campainha e o Cujo, estampa litografada de Victor Larée.

Depois, vieram os artistas Sisson e Moreau, bem como o gravador Briggs, até o surgimento de Angelo Agostini, italiano do Piemonte vindo com a mãe, cantora lírica. E o português Raphael Bordallo Pinheiro. Os dois tiveram um trabalho fundamental em impor um trabalho de arte na caricatura.

As fases posteriores revelaram um gênio, J.Carlos. E ainda em São Paulo, Belmonte. Estes dois, hoje, têm seus desenhos vendidos até em leilões de arte.

Os veículos brasileiros deram guarida a chargistas (do termo francês charge-carga), na tradição francesa de crítica política e de costumes, como nos papiros egípcios ou nos tabulae de Roma. Os jornais e revistas possibilitaram a constante presença de artistas e críticos da sociedade, formando gerações. Theo, Lan, Guevara, Ramiro, P. de Lara, Nelo, Álvaro de Moya, Messias de Mello, Jayme Cortez, Ziraldo, Caruso, Zélio, Henfil, Hilde, Gepp e Maia, Negreiros, Fortuna, Millor Fernandes, Péricles, Borjalo, Lor, Glauco, Rosasco, Jaguar, Claudius, Alvarus, Kalixto, e tantos outros.

Conheci Jorge Arbach pessoalmente (embora já conhecesse seu trabalho), no saguão da editora Martins Fontes, em São Paulo. Estava com o boneco de seu novo álbum oferecendo para o editor Luis Lorenzo Rivera. Em termos de nível de qualidade, do produto final, papel e impressão, encadernação e acabamento era possível um acordo, mas no formato não, infelizmente. O autor resolveu ser, mais uma vez, seu editor. O cuidado gráfico é essencial na compreensão da mensagem. Mac Luhan estava certo: o meio é que é.

A importância do aspecto gráfico nos comentários visuais devem ser preservados, e a continuidade dos livros que podem formar uma coleção, devem se constituir num documento social de nossa época. Assim como o livro anterior, Penso, logo insisto foi um documento expressivo do período 81 – 84, este livro, Desenhos Falados, retrata o nosso Brasil de 85 a 89. Triste Brasil.

Fortunado Brasil que permite com seus amados defeitos, o surgimento de filhos críticos capazes de fazer da ilustração uma obra de arte, da mordacidade uma declaração de amor. Uma denúncia em uma abertura de olhos, um despertar do povo gigante eternamente adormecido em berço esplêndido.

O que mais ressalta no belo trabalho de Jorge Arbach é a correlação entre o conteúdo e a forma; o grafismo marcante, os preto e branco contrastantes e explosivos. Aquilo que o editor do jornal O Tempo (onde eu fazia as charges políticas em substituição ao titular Rosasco) chamava de um “punch in lhe nose”, quando a página era aberta.

Que esta obra de arte da ilustração e do grafismo seja um soco na cara dos reis da mordomia, dos falsários de Brasília e dos assaltantes do povo brasileiro.

Álvaro de Moya