Jorge Arbach é um artista que desconcerta pela simplicidade. Mais que pelo refinamento incomum do traço, seu desenho nos agarra pela surpresa, pela descoberta do inusitado no óbvio, ou do óbvio no inusitado. Apesar de feitos, em sua maioria, para veículos perecíveiS por natureza, seus trabalhos transcendem e sobrevivem à efemeridade do jornal diário, porque, mais que ilustrar, recriam.
Certamente, mais de uma vez isso já lhe trouxe problemas. Da época em que trabalhamos juntos no Jornal do Brasil (87/88), lembro que Arbach era considerado, mesmo por seus colegas, um ilustrador talentoso mas difícil. Justamente porque sua vocação criadora lhe exigia sempre mais que meramente ilustrar uma matéria (para estranhamento dos editores que, na hora de fechar o jornal, se deparavam com desenhos que multiplicavam as significações da palavra impressa, criando ambigüidades onde todos queriam enxergar certezas cristalinas).
É talvez esse caráter subversivo do desenho de Arbach (subversivo da notícia como espaço da verdade única e transparente; subversivo da realidade como instância última e castradora) que credencia como um dos responsáveis por elevar status das ilustrações de jornal à categoria de arte.
Para Jorge Arbach a verdade sempre tem muitos lados, ou no mínimo dois: o que aparece antes (no texto) e o que ele revela depois (na imagem). Nesse sentido, ele é, sobretudo, dialético. Sintomaticamente este seu segundo livro, Desenhos falados, começa e termina com um desenho no qual muitas mãos apontam com firmeza para a direita, mas cada uma delas traz em si o germe de sua contradição: os três dedinhos que, teimosamente, indicam o sentido contrário.
Toda ação provoca uma reação. Jorge Arbach está do lado da reação, mas sabe que a experiência do visível só se dá no contexto do invisível. O chapéu da página 78 é feito de balas, ou são as balas que nascem do chapéu? As sobrancelhas de Moravia, na página 62, se assemelham a chifres ou estamos diante de chifres que nos fazem pensar em Moravia? Arbach brinca com o olhar do outro, transformando palavras em imagens e imagens em palavras. E um ilustrador concretista.
Cada desenho de Arbach renderia mil palavras, porque ele desenvolve no campo visual um trabalho semelhante ao da poesia: produz, com rigorosa economia de recursos, efeitos estéticos que a realidade só obtém usando uma pluralidade de códigos. Mas, o espaço aqui não é suficiente para uma análise semiológica à altura de seus trabalhos. Quando nos reencontramos, em São Paulo, Jorge Arbach estava de passagem, percorrendo redações e oferecendo seus trabalhos. Tinha decidido trocar os grandes centros urbanos (onde eu, humilde mortal, teimava em fincar raízes) por Lençóis, no interior da Bahia, a quase 40 horas da capital paulista. Vivia, ele me contou, à base de um sistema de trocas: desenhos, projetos e logotipos, por casa, mantimentos e reteíções. Tudo me pareceu tão irreal que, se o escrevo aqui, é em parte para acreditar que acredito em que é possível viver à margem dessa imensa bagunça em que transformaram o Brasil.
Jorge Arbach vive. E é feliz. Será arte?
Luciano Trigo